Lembrança
preciosa para a alma fiel
(
Conto de Alma Welt )
Habitam no mesmo
prédio onde mantenho ateliê, alguns andares acima, três irmãs: Marga, Leotácia
e Lavínia, solteironas de meia idade, que freqüentemente encontro no elevador,
cheias de sorrisos e amabilidades.
Lavínia, a mais jovem, guarda os traços de uma antiga beleza,
fanada, mas que revive nos reflexos de seus olhos vivazes quando ri. Leotácia,
a do meio, mais tímida, sorri com discreção, correta e contida. Marga, a mais
velha, sorri forçado, mal disfarçando uma tristeza persistente e oculta.
Convidaram-me, hoje, no elevador, a visitá-las e tomar chá em seu apartamento.
À hora combinada, aperto o botão da campainha, a
porta se abre após um murmúrio eufórico que veio de dentro, e introduzo-me no
pequeno mundo destas três amáveis anfitriãs, que se apressam em rodear-me com
efuzividade e ternura. Marga e Leotácia correm, a seguir, para a cozinha para
preparar o chá, enquanto Lavínia, os olhos brilhando, faz-me sala, segurando
intermitentemente minhas mãos. Faz elogios à minha beleza e juventude e diz-se
admirada de minha coragem de jovem pintora independente.
Mal sabe ela dos meus receios e inseguranças, da luta surda
pela minha precária, mas elegante, subsistência; dos lobos que me rondam o
atelier a pretexto de meus quadros; falso subterfúgio de suas cobiças menos
confessáveis.
Mais à vontade, peço-lhe que me deixe examinar as paredes e
objetos que povoam este apartamento sobrecarregado de memórias e bric-a-brac.
Bibelôs e quadros de gosto duvidoso, toalhinhas de renda por todos os lados,
sob pequenos objetos, e uma fruteira, de cera, consternante. Na parede, logo à
entrada, chamou-me a atenção um quadrinho em forma de caixa com vidro que
guarda uma imagem de um kitsch
alucinante. Um diploma desbotado de primeira comunhão representando um anjo da
guarda de grandes asas brancas que conduz uma criança loura, uma menina de
cachos, a atravessar um riacho ou coisa parecida. Emoldurando a cena, um
pequeno rosário verdadeiro, de pequeninas contas esmaecidas, está colado sobre
a imagem, cincundando-a em forma de coração com a cruzinha na ponta, dando-lhe
uma aparência de ex-voto. Dentro do rosário, e acima da cena, lê-se a divisa em
letras douradas: “Lembrança preciosa para a alma fiel”. Tive um pequeno arrepio
e sorri involuntariamente.
Agora a mesa está posta por Leotácia, com uma bela toalha de
renda de bilro, as xícaras chinesas em seus pires ultradecorados. Um belo bule
combinando chega fumegante da cozinha, nas mãos de Marga. Pães, brioches,
biscoitinhos, manteiga e tudo o mais. Sentamo-nos à mesa, contentes como velhas
amigas, palrando como as mulheres fazem quando não há homens por perto.
Logo, porém, algo estranho aconteceu. Ao procurar servir-me,
percebi que havia um único saquinho de chá e que o bule continha, somente, água
quente. Constrangida, hesitei em prosseguir, mas sob as instâncias das três
coloquei-o na minha xícara e esperei, curiosa. Marga desculpou-se pela
distração, lamentando a falta do chá na casa, só agora percebida.
Entreolhavam-se, confusas e prestes a culparem-se umas às
outras. Disse-lhes que não tinha importância, que o saquinho seria colocado no
bule e daria para nós quatro, um pouco fraco, talvez, mas razoável.
Protestaram, dizendo que não; que faziam questão que eu o tomasse e que havia
outra solução. Então, Lavínia tirou do
peito um escapulário e as outras a imitaram tirando escapulários e bentinhos do
pescoço, mergulhando-os na água quente do bule. Serviram-se, logo, avidamente,
enquanto eu sorvia meu chá, surpresa e curiosa.
Marga logo se descontraíu e os risinhos aumentaram com
comentários maliciosos sobre o novo chá. Ficaram mais e mais buliçosas e a mesa
parecia zumbir como um enxame de abelhas, com gargalhadas finas, súbitas e olhares
entrecruzados. A excitação aumentava, logo começariam as confidências.
Lavínia estava à beira da inconveniência, e Leotácia
cantarolava hinos religiosos como se fossem música de bar. Marga despira o véu
negro dos olhos e resplandecia com lampejos de uma beleza insuspeitada. De
repente, comandou uma pausa com um gesto de mão e sugeriu que cada uma contasse
a sua estória mais íntima, sem reservas afinal, pois, misteriosamente, a
coragem reinava, os véus caíam e a verdade podia agora triunfar.
Lavínia pediu a palavra. Começou, em meio a risos, como
bêbada, mas logo mais coerente, a contar o amor de sua vida. Nada mais, nada
menos que um jardineiro adolescente que tratava os jardins do colégio de
freiras em que estudavam as três, internas. Ele escalava, à noite, a janela do
andar superior do dormitório das moças e se encontravam num vão de escada, no
escuro, onde perderam suas virgindades em medo e êxtase misturados. Logo o
perderia para sempre, expulso que foi, denunciado por uma pequena delatora.
Um caso comum, afinal, mas intenso, a julgar pelo brilho
molhado dos olhos de Lavínia e seu súbito pranto sobre a xícara. Seu desconsolo
sugeria que não houve outros amores, desde então. E sua virgindade tinha se
refeito, naturalmente, misteriosamente. Suas irmãs a consolaram e brandiam o
dedo jocosamente, reprovando-lhe, com ternura, o segredo tão longamente
guardado.
Agora era a vez de Leotácia, que sufocava de vontade de falar
e de rir. Começou a descrever o ambiente austero da escola como um convento, a
religiosidade exacerbada, as idas ao confessionário que, essas sim, se tornaram
um vício excitante, mas vazio. Até que apareceu Frei Narciso de Jesus, nomeado
seu novo confessor, um jovem padre de extraordinária beleza, por quem logo se
apaixonou.
As confissões, agora, mais as excitavam, cheias de instintiva
sedução, de uma malícia pura e ingênua, que não tardou a encantar o jovem
padre. Muito puro também, o padreco resistiu bravamente, segundo sugeria a
narrativa de Leotácia. Impô-se, como sempre acontece nas estórias, o cilício e
o voto de castidade constantemente invocado. Torturas indizíveis do corpo e da
alma. Como soi acontecer, fraquejou, pecou, culpou-se, matou-se.
Indefectivelmente foi encontrado pendurado na corda do sino da igreja, pelo
pescoço, naturalmente, e sem o badalo, que ele havia cortado...
Consolada Leotácia, mais aliviada pela nova confissão,
abraçada em lágrimas por todas nós, prestamo-nos a ouvir a confidência de
Marga. Esta estava estranha, trêmula, seus olhos procuravam algo no passado, e
sua tristeza aflorou novamente como um tesouro que emerge do fundo das águas de
um lago esquecido.
Com voz grave e profunda, começou a descrever o vasto
dormitório infantil do convento, as caminhas enfileiradas, lençóis brancos, mas
tudo cinza na memória, as meninas uniformizadas, todas iguais e esmaecidas pelo
tempo. Mas, de súbito, um brilho radioso: um rosto, de um anjo louro, uma
menina bela, bela, de cachos na cabeça, olhos azuis e bochechas coradas como
uma maçã, enfim, a alemãzinha...
Paixão imediata e recíproca. Dormia na cama ao lado da sua e
chorava de noite, com saudade de tudo o que perdera ou do que não tivera. Marga
logo a consolaria, passando para sua cama no escuro, já na primeira noite de
sua chegada. Afagou-lhe os cabelos longamente, abraçadas sob o lençol, os
rostos muito juntos, olhos nos olhos até que adormecessem.
A beleza de Ingrid, logo se tornaria uma obsessão de amor e
devoção para Marga, muito bela ela própria, mas inconsciente disso por força de
seus traços quase exóticos. Noites e noites passaram juntas na cama abraçadas
em confidências apaixonadas, infantis a princípio, depois precoces, num ardor
que as consumia, fazendo-as acariciar-se cada vez mais ousadamente. Logo
apertavam-se os incipientes peitinhos mutuamente, chupavam-nos, gemiam,
beijavam-se ardentemente nos lábios, sugados até intumescerem e doerem,
sangrarem mesmo. Suas mãozinhas procuravam partes escondidas, mal conhecidas,
instintivamente, até penetrarem-se com os dedinhos ávidos, atrás, na frente.
Viravam-se de bruços para serem devassadas pelas mãozinhas
que lhes abriam as pequenas nádegas e sentiam o narizinho frio tocar-lhes os
pequeno orifício róseo, beijado e aurido em seu odor, quase um perfume, em sua
paixão avassaladora.
Seus pequenos corpos começaram a apresentar marcas.
Emagreciam, ostentavam pequenos hematomas, denunciando lábios, dentadinhas.
Seus olhos brilhavam demais. Tinham olheiras. Andavam feito sonâmbulas de dia,
de mãos dadas na fila, no pátio, em toda parte. Não paravam de se olhar, no
refeitório durante as refeições. Suspiravam, sorriam uma para a outra. O tempo
todo. As outras meninas riam. Comentavam. Começou o disse-me-disse. A suspeita
crescia. Logo as freiras notariam e a madre superiora interveio. Chamou-as
juntas, depois em separado. Sondou-as com aquele olhar severíssimo,
interrogou-as com rodeios, pois não suportava, sequer, a idéia de sua própria
suspeita. As meninas puseram-se a chorar, já infectadas pela culpa impingida.
Mas a dor e a paixão eram tão grandes que se agarraram quando decretaram sua
separação definitiva. E foi uma cena dramática, com freiras puxando-as uma para
cada lado e a madre superiora, no centro, tentando apartar-lhes as mãozinhas.
Gritos, súplicas, lágrimas em abundância. E a dor, a dor, a dor de seu amor
conspurcado, perdido, confiscado.
Marga trancou seu coração desde então. Mas preservou-o na
memória oculta do amor verdadeiro, sagrado, límpido e ardente de sua infância
roubada, de sua pureza ultrajada pela intervenção do Mundo.
Marga terminou seu relato. Estávamos estupefactas e comovidas
ao mesmo tempo. Demoramos a abraçá-la. Temíamos tocá-la como se seu corpo
tivesse se tornado o de uma vestal sagrada, iniciada pelo amor de uma Psiquê
infantil. E, para sempre, proibido aos homens e mulheres.
O chá tinha acabado. Minhas amigas voltavam ao
Presente como de um transe. Suas máscaras faciais se recompunham, um pouco
gastas, mas ainda sorridentes, vagamente melancólicas. Beijaram-me as mãos em
despedida, com um carinho fraternal que me pôs menina de escola junto à porta
de saída.
Retirei-me para o corredor, de onde peguei o elevador,
e desci para o meu atelier solitário, mas povoado pelos meus quadros e pelas
minhas próprias dolorosas e preciosas lembranças.
Aquela noite eu receberia o meu jovem marchand com a
prancheta posta como uma mesa, uma garrafa de vinho e um candelabro com velas,
no centro.
Estava disposta a mostrar-lhe tudo.